BHT – Antioxidante para Cosméticos e Perfumaria
O BHT (Butylated Hydroxytoluene) é um antioxidante sintético amplamente utilizado nas indústrias cosmética e de perfumaria. Sua principal função é auxiliar na proteção de matérias-primas suscetíveis à oxidação, contribuindo para preservar características como odor, cor e estabilidade do produto durante o armazenamento.
Seu nome INCI é BHT, seu nome químico é 2,6-di-tert-butyl-4-methylphenol e seu número CAS é 128-37-0. Apresenta-se normalmente na forma de cristais ou pó cristalino branco a levemente amarelado.
O BHT pertence à classe dos antioxidantes fenólicos. Sua estrutura química permite atuar sobre determinadas reações envolvendo radicais livres, interrompendo ou retardando reações em cadeia relacionadas aos processos de oxidação.
É importante diferenciar sua função daquela exercida pelos conservantes antimicrobianos. O BHT não substitui o sistema conservante de uma formulação. Enquanto os conservantes são empregados principalmente para controlar o desenvolvimento de microrganismos, o BHT é utilizado para auxiliar na proteção de componentes suscetíveis à degradação oxidativa.
Origem do BHT
O BHT é um antioxidante de origem sintética. Diferentemente de antioxidantes como o tocoferol, que pode ser obtido a partir de fontes vegetais, o BHT comercial é produzido por síntese química.
Quimicamente, trata-se do 2,6-di-tert-butyl-4-methylphenol, uma molécula pertencente à família dos fenóis impedidos. Sua estrutura molecular está diretamente relacionada à sua capacidade de interromper determinadas reações oxidativas em cadeia.
As matérias-primas tradicionalmente empregadas na fabricação industrial do BHT estão associadas à indústria química e à cadeia petroquímica. Por esse motivo, o BHT não é normalmente apresentado como ingrediente de origem vegetal ou natural.
Essa característica deve ser considerada principalmente em formulações desenvolvidas com conceitos de naturalidade ou certificações específicas. Para cosméticos naturais ou com determinados referenciais de certificação, outros sistemas antioxidantes podem ser mais adequados, dependendo dos critérios adotados.
Propriedades e solubilidade
Uma característica importante do BHT é seu comportamento lipofílico. O ingrediente apresenta maior afinidade por matérias-primas oleosas e solubilidade muito baixa em água.
Essa propriedade explica sua utilização em óleos, manteigas, fragrâncias, produtos anidros e na fase oleosa de emulsões. A simples adição do BHT à água não promove sua adequada solubilização.
Em formulações hidroalcoólicas, como perfumes, também é necessário observar cuidadosamente sua solubilidade. Embora exista solubilidade em determinados solventes orgânicos, preparar soluções concentradas de BHT diretamente em álcool etílico à temperatura ambiente pode apresentar dificuldades.
O aquecimento de álcool etílico não deve ser tratado como uma solução simples para esse problema. O etanol é altamente inflamável e seu aquecimento requer instalações, equipamentos e procedimentos apropriados para líquidos inflamáveis.
Por esse motivo, em pequenas produções ou instalações que não possuam equipamentos específicos para esse tipo de operação, é mais adequado estudar outras formas de incorporação.
BHT na perfumaria
Na perfumaria, o BHT pode ser empregado para auxiliar na proteção de matérias-primas aromáticas suscetíveis à oxidação. Isso pode ser particularmente interessante em composições contendo determinados óleos essenciais, extratos lipofílicos e componentes aromáticos mais sensíveis.
Óleos essenciais cítricos, por exemplo, possuem constituintes que podem sofrer alterações oxidativas durante o armazenamento. Oxigênio, luz, temperatura e tempo estão entre os fatores que podem favorecer essas transformações.
A oxidação de uma composição aromática pode resultar em alterações do perfil olfativo, mudanças de cor e aparecimento de notas indesejáveis.
O BHT atua de maneira preventiva, retardando determinadas reações oxidativas. Isso significa que sua utilização não recupera uma matéria-prima que já esteja oxidada.
A qualidade inicial das matérias-primas continua sendo fundamental para a estabilidade do perfume.
Procedimento de incorporação
Em perfumes, uma possibilidade é realizar a pré-solubilização do BHT em uma pequena quantidade do próprio concentrado de fragrância, desde que testes prévios demonstrem completa dissolução e estabilidade.
Também podem ser avaliados veículos compatíveis com perfumaria, como Trietil Citrato (TEC) e Dipropilenoglicol (DPG). A capacidade de solubilização precisa ser confirmada experimentalmente, pois depende da concentração, temperatura, veículo e composição da fragrância.
Após a pré-solubilização, a solução pode ser incorporada gradualmente à formulação sob agitação.
É importante observar não somente se o BHT dissolve durante a fabricação, mas também se permanece solubilizado depois de algumas horas ou dias e durante o armazenamento do produto.
Em óleos corporais, séruns oleosos, balms, manteigas e outras formulações anidras, o BHT apresenta maior afinidade com a fase lipídica.
Em emulsões, normalmente é incorporado à fase oleosa, respeitando-se as características particulares da formulação e as orientações técnicas do fornecedor.
Faixas de uso
A quantidade necessária depende da formulação, das matérias-primas utilizadas e do nível de proteção antioxidante pretendido.
Em desenvolvimento cosmético, são normalmente avaliadas pequenas concentrações. Como referência para testes de desenvolvimento, podem ser estudadas concentrações da ordem de 0,01% a 0,10%, sempre considerando a legislação aplicável, a finalidade do produto e as recomendações do fornecedor.
Em perfumes e fragrâncias, níveis como 0,02% a 0,05% podem ser avaliados inicialmente, desde que posteriormente sejam realizados testes de estabilidade e compatibilidade.
Para 1 kg de produto final:
- 0,01% corresponde a 0,10 g de BHT;
- 0,02% corresponde a 0,20 g;
- 0,05% corresponde a 0,50 g;
- 0,10% corresponde a 1,00 g.
Essas quantidades correspondem ao BHT ativo. Caso seja utilizada uma solução previamente preparada, sua concentração deve ser considerada no cálculo da quantidade adicionada ao produto final.
Estabilidade
Um aspecto particularmente importante em perfumes é verificar não apenas a dissolução inicial do BHT, mas sua permanência em solução durante toda a vida útil pretendida para o produto.
Um perfume aparentemente transparente logo após sua fabricação pode apresentar cristais posteriormente caso a quantidade de BHT ultrapasse a capacidade de solubilização do sistema.
Temperaturas mais baixas também podem favorecer a cristalização de determinados componentes.
Por isso, durante o desenvolvimento devem ser observados parâmetros como transparência, presença de precipitados, odor, cor e estabilidade física.
O antioxidante também não substitui boas práticas de armazenamento. Exposição excessiva ao calor, luz e oxigênio pode acelerar processos de degradação mesmo quando a formulação contém antioxidantes.
Segurança e controvérsias sobre o BHT
Apesar de sua longa utilização, o BHT também é um ingrediente que já foi objeto de discussões relacionadas à sua segurança.
Parte dessa controvérsia está associada a estudos toxicológicos experimentais realizados com diferentes níveis e vias de exposição. Alguns trabalhos em animais, particularmente envolvendo exposição oral e doses relativamente elevadas, observaram efeitos biológicos que motivaram avaliações adicionais de segurança.
Também surgiram questionamentos científicos sobre uma possível atividade endócrina do BHT. Essa questão levou organismos científicos e autoridades regulatórias a reavaliar os dados disponíveis.
É importante, entretanto, diferenciar a identificação de um efeito em determinadas condições experimentais da avaliação do risco associado à exposição real do consumidor. Dose, concentração, duração da exposição e via de administração são fatores fundamentais na interpretação de estudos toxicológicos.
Em 2021, o Scientific Committee on Consumer Safety (SCCS), comitê científico da Comissão Europeia, publicou uma avaliação específica sobre o BHT considerando também preocupações relacionadas à possível atividade endócrina.
Com base nos dados avaliados, o SCCS considerou o BHT seguro em determinadas concentrações máximas nas categorias cosméticas analisadas. Para produtos cosméticos leave-on e rinse-off, o parecer considerou seguro o uso individual até 0,8%, além de estabelecer avaliações específicas para produtos de higiene oral.
Esses valores representam limites considerados na avaliação de segurança do SCCS e não significam que seja necessário utilizar concentrações próximas a eles. Para sua função antioxidante, normalmente são empregadas quantidades muito inferiores.
Outras avaliações científicas também analisaram a segurança do BHT. O Cosmetic Ingredient Review (CIR), por exemplo, reavaliou informações toxicológicas disponíveis e publicou conclusão relacionada à segurança do ingrediente nas condições de uso cosmético avaliadas.
Isso não significa que as discussões científicas devam ser ignoradas. Pelo contrário: a existência dessas avaliações demonstra a importância de acompanhar continuamente novos dados toxicológicos e mudanças regulatórias.
No desenvolvimento de uma formulação, a escolha entre BHT e outro antioxidante também pode considerar o posicionamento comercial do produto.
Uma marca voltada para formulações convencionais pode optar pelo BHT devido à sua eficiência antioxidante e ao seu histórico de utilização. Já uma formulação orientada para conceitos de origem natural pode preferir alternativas como tocoferóis ou determinados extratos antioxidantes.
Portanto, classificar simplesmente o BHT como “perigoso” ou, no sentido contrário, afirmar que qualquer quantidade é segura seria uma simplificação inadequada. A avaliação deve considerar concentração, exposição, categoria do produto, legislação vigente e dados toxicológicos disponíveis.
Alternativas ao BHT
Quando o objetivo é desenvolver formulações com maior índice de naturalidade, existem outros antioxidantes que podem ser avaliados.
Entre os mais conhecidos está o Tocoferol (Vitamina E), ingrediente lipossolúvel utilizado para auxiliar na proteção de óleos e outros componentes lipídicos contra a oxidação.
Outra possibilidade são os tocoferóis mistos, compostos por diferentes formas de tocoferol e frequentemente utilizados na estabilização de óleos vegetais.
Também existem extratos antioxidantes de alecrim desenvolvidos especificamente para aplicação em sistemas oleosos.
A substituição do BHT por esses antioxidantes, entretanto, não deve ser realizada automaticamente na proporção 1:1.
Cada antioxidante apresenta composição, concentração ativa, solubilidade, comportamento e eficiência diferentes. A formulação deve ser submetida a novos testes de estabilidade sempre que houver alteração do sistema antioxidante.
Considerações finais
O BHT é um antioxidante sintético de caráter lipofílico utilizado há décadas em diferentes aplicações, incluindo cosméticos e perfumaria.
Sua principal função é retardar processos oxidativos que podem comprometer matérias-primas e alterar características como odor e cor.
Na perfumaria, sua utilização requer atenção especial à solubilização. A pré-solubilização no concentrado de fragrância ou a avaliação de veículos compatíveis, como Trietil Citrato e DPG, pode ser uma alternativa à preparação de soluções concentradas diretamente em álcool.
A utilização do BHT também deve considerar as discussões toxicológicas existentes. Essas discussões motivaram avaliações de segurança por organismos científicos, que estabeleceram condições e concentrações consideradas seguras para determinadas aplicações cosméticas.
Ao mesmo tempo, consumidores e marcas que buscam conceitos de maior naturalidade podem optar por outros sistemas antioxidantes.
A escolha do antioxidante deve, portanto, considerar eficiência, concentração, solubilidade, estabilidade, legislação, segurança e o posicionamento pretendido para o produto.
Quando corretamente empregado e avaliado dentro da formulação, o BHT pode contribuir para a proteção oxidativa de perfumes, óleos, emulsões e outros produtos cosméticos.
Referências Bibliográficas
BAREL, A. O.; PAYE, M.; MAIBACH, H. I. Handbook of Cosmetic Science and Technology. 4. ed. Boca Raton: CRC Press, 2014.
CIR – COSMETIC INGREDIENT REVIEW. Safety Assessment of BHT as Used in Cosmetics. Washington, DC: Cosmetic Ingredient Review.
EUROPEAN COMMISSION. Scientific Committee on Consumer Safety – SCCS. Opinion on Butylated Hydroxytoluene (BHT). Luxembourg: European Commission, 2021.
EUROPEAN COMMISSION. CosIng – Cosmetic Ingredients Database: BHT. Brussels: European Commission.
PUBCHEM. Butylated Hydroxytoluene (BHT). Compound Summary. Bethesda: National Center for Biotechnology Information.
ROWE, R. C.; SHESKEY, P. J.; QUINN, M. E. Handbook of Pharmaceutical Excipients. 6. ed. London: Pharmaceutical Press, 2009.
UNITED STATES PHARMACOPEIA. USP–NF: Butylated Hydroxytoluene. Rockville: United States Pharmacopeial Convention.
ANVISA – AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Legislação aplicável a produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes. Brasília: ANVISA.